A Origem

1 dez

(O texto contém spoilers sobre o filme, portanto não leia se ainda não assistiu!)

Ao assistir A Origem, duas coisas são óbvias: a primeira é que Leonardo DiCaprio se transformou em um ator extremamente completo e competente do começo da sua carreira até aqui; a segunda é que depois do excelente O Cavaleiro das Trevas, o público não esperava nada menos que excelente vindo de Christopher Nolan. E com certeza não se decepcionou.

 

Com um roteiro extremamente criativo, A Origem poderia acabar caindo no clichê ou até mesmo desandar, já que toca em temas sempre complicados de lidar: a diferença entre sonho e realidade (que foi abordado em Matrix com certa competência – ao menos até o fraquíssimo Matrix Revolutions), o inconsciente da mente e relações humanas. Mas isso não acontece. Aliás, Nolan consegue, através de seu roteiro e de um trabalho fenomenal de montagem, criar personagens tridimensionais e interessantes: Cobb (Leonardo DiCaprio) é um homem que, tendo o incomum trabalho de penetrar nos sonhos das pessoas, acaba com problemas em relação a sua esposa, Mal (Marion Cotillard), que se perde entre o real e o irreal. Ele vive o dilema de achar que causou, mesmo que indiretamente, a morte de sua amada e vive com a culpa disto, além de se culpar ainda mais por estar longe dos filhos e de estar vivendo como foragido, já que é o principal suspeito da morte de Mal. A junção de tudo isso vira um gatilho para que ele aceite o trabalho que Saito (Ken Watanabe) o oferece, em troca de resolver seus problemas com a polícia. Tudo isso contribui para criar a complexidade psicológica do protagonista, que se torna interessantíssimo.

O filme também aborda alguns outros conceitos (e de forma inteligente!) como sonho lúcido, e até mesmo faz uma referência à teoria do caos, quando mostra que a “semente” de uma idéia, ao ser plantada, pode virar algo grande e até mesmo destruidor – que é exatamente o que acontece com Mal, quando esta perde a capacidade de diferenciar a realidade do mundo criado por ela e Cobb e, então, ele planta na cabeça da esposa a idéia de que tudo aquilo não é real.

Os recursos visuais, a montagem e a fotografia também são utilizados de maneira extremamente bela e orgânica: Nolan faz uso da câmera lenta nos momentos certos, onde ela é importante para a narrativa, ao contrário de porcarias como Transformers, onde Michael Bay insiste em usar o recurso à exaustão, fazendo com que fique saturado e perca o sentido; a competente direção de arte cria ambientes realmente dignos de sonhos e que parecem reais e ao mesmo tempo surreais e que, assim, cabem perfeitamente bem no conceito do filme; as camadas do sonho projetadas por Ariadne (Ellen Page) usam diferentes recursos de fotografia fazendo com que, mesmo nos momentos em que aparecem na mesma seqüência, possamos identificá-las, já que cada uma tem seu próprio estilo.

Sobre a câmera lenta, ainda adiciono: o recurso usado por Christopher Nolan para mostrar o “chute” da queda da van e fazer com que possamos entender a diferença da passagem do tempo entre as camadas do sonho é elegante e um bom exemplo do uso desta, que repito, hoje em dia é usada em excesso e sem necessidade em muitas produções, só para criar uma falsa sensação de que algo está acontecendo na tela.

Sendo assim, A Origem funciona como uma ficção científica de extrema qualidade, tendo sido minuciosa e competentemente cuidadosa em toda sua execução.

 

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5 Respostas para “A Origem”

  1. Marina Fogaça 1 de dezembro de 2010 às 21:39 #

    Tá, mas a pergunta principal continua sendo: e o peão, parou de rodar?
    OMG, eu adorei esse filme…

    • Renata de Freitas 1 de dezembro de 2010 às 23:06 #

      Eu li uma teoria da conspiração que dizia que Ariadne era, na verdade, a filha de Cobb, no futuro. Tem um pouco de lógica se pensar na paranóia dela em saber como era a Mal e na indicação que o pai do Cobb dá para que ela seja a escolhida. Eu teria que rever o filme….

      • Marina Fogaça 5 de dezembro de 2010 às 3:13 #

        Pois olhe… Acho que faz sentido sim :)

Trackbacks/Pingbacks

  1. Tron – O Legado « Bem Bonito - 30 de dezembro de 2010

    [...] somente já que, aparentemente, isso virou lugar comum). É exatamente por isso que ver filmes como A Origem é tão [...]

  2. Oscar – Vencedores « Bem Bonito - 3 de março de 2011

    [...] com O Discurso do Rei. O roteiro pode até ser bom, mas não é, nem de longe, o melhor dos cinco. A Origem, por exemplo, tem um roteiro tão inteligente e complexo, que Chistopher Nolan levou oito anos para [...]

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