Tendo o ballet, mais especificamente “O Lago dos Cisnes” como tema, Cisne Negro se mostra um drama psicológico altamente competente, devido ao trabalho impecável de direção aplicado por Darren Aronofsky e ao genial roteiro concebido por Mark Heyman e Andres Heinz.

O longa gira em torno da jovem Nina Sayers (Natalie Portman), uma bailarina extremamente dedicada não só à dança, mas à companhia da qual faz parte. Após anos de esforço, trabalho duro e a promessa de que seria recompensada com um papel de mais destaque, Nina é escolhida para estrelar “O Lago dos Cisnes”, em que a mesma bailarina faz as partes de ambos cisnes Branco e Negro, sendo o primeiro algo extremamente natural para a garota de personalidade meiga e dócil. O problema se encontra justamente no segundo, em que a bailarina deve ter movimentos extremamente naturais (que contrastam com a técnica elaborada de Nina) e um ar de malícia e sensualidade, justamente algo que ela não consegue ter.

Começando já em um clima de tensão, com a garota tendo um sonho com a peça na qual dançaria, o filme já mostra a que veio. Na seqüência em que ela faz seu trajeto rotineiro para ir ao ensaio, Nina, de forma já meio perturbada, parece ver outra bailarina no metrô e, depois, quando a vemos caminhar até o prédio da companhia, Aronofsky emprega o recurso da câmera subjetiva fazendo com que tenhamos a impressão de que Nina está sendo perseguida por alguém que, naquele ponto do longa, não sabemos ainda se existe ou não.
Outra seqüência interessante acontece quando a protagonista faz a audição para o papel de Rainha Cisne: ao tentar dançar as partes do Cisne Negro, é curioso que ela se atrapalhe, perca o controle e caia justamente quando Lily (Mila Kunis) entra na sala com seu jeito despreocupado e de fones de ouvido. Aliás, Lily chega a ser o extremo oposto de Nina até o fim da primeira metade da projeção.

Ao ser pressionada nos ensaios para que dance com perfeição (e cobrando demais de si própria, fazendo ela mesma com que a pressão seja ainda maior), Nina entra numa espécie de relação complicada com Lily, que ao mesmo tempo que parece ser uma ameaça que quer tomar seu lugar, acaba atraindo a garota e mostrando uma parte do mundo que ela não parecia conhecer, sendo tão infantilizada e controlada pela mãe (o design de produção é extremamente competente ao ajudar a criar esse universo. Perceba, por exemplo, que o quarto dela é todo rosa e branco, cheio de ursinhos de pelúcia, não muito diferente do quarto de uma menina de 12 ou 13 anos). Quando passa a ter mais contato com Lily, esta a apresenta ao mundo do álcool e das drogas, um contraste enorme ao que ela estava acostumada a conviver, mas algo que ela parece aproveitar, dada a situação da pressão.

É neste ponto que ela parece ser invadida pela personalidade do Cisne Negro, já que o longa também acaba servindo ao propósito da metáfora: se no início a bailarina não conseguia ser o Cisne Negro no palco, agora ela aparentemente começa a sê-lo na vida real, devido a um estado que beira a psicose. Aliás, se na história de “O Lago dos Cisnes”, as duas gêmeas lutam pelo amor do príncipe, aqui, Thomas Leroy (Vincent Cassel), diretor da companhia de ballet, chama Nina justamente de “princesinha”, mostrando mais uma vez a metáfora. A seqüência de maior perturbação mental de Nina é, inclusive, de uma genialidade tremenda. Perturbadora, mas justamente por isso, genial. Ao acordar no grande dia de sua apresentação, temos a falsa impressão de que tudo aquilo havia sido um pesadelo e que agora as coisas estão bem. Mas ao levantar-se da cama e ir para o teatro, Nina continua tão perturbada quanto antes, senão mais. Ao dançar a parte do Cisne Negro, Nina tinha certeza de ter matado Lily (e, aparentemente, justamente por isso consegue dança-lo com maestria) para depois descobrir que seu comportamento não era destrutivo com os outros, mas justamente para ela mesma.

Natalie Portman nos presenteia com uma atuação genial e sensível, dando à sua Nina uma tridimensionalidade incrível, que é exatamente o que Aronofsky consegue fazer ao guiar o longa de forma impecável.